terça-feira, 7 de abril de 2015

Diário de Gravidez - Primeiras impressões

Durante 28 anos e 8 meses eu afirmei para mim e para a sociedade que me rodeia que, em hipótese alguma, ficaria grávida. Esta afirmação foi consolidada em uma consulta médica que me reduziu a quase, QUASE, zero as possibilidades de ser mãe; o que de certa forma me deixou incomodada.
Por que? Porque entre escolher não ser mãe e não poder ser mãe existe um abismo.

Chegando o início de março de 2015, eis que, ao abrir um exame de sangue de desencargo de consciência, lá está, números, muitos, tantos que embaralharam-se na minha frente, rodopiaram e saltavam contra meu rosto como se quisessem se divertir com a minha confusão mental. Eles diziam, você está grávida!

Eu olhei para o poço de luz e cogitei, por um breve (não tão breve) momento, que não seria uma morte tão dolorosa e abracei a possibilidade como se fosse um cobertor quente e acolhedor.
Nossa, que mulher dramática? É isso que você está pensando? Pois aceita que dói menos, ninguém, NINGUÉM, a menos que tenha um distúrbio muito forte, pula e saltita de alegria quando descobre que está grávida. Isso é na novela.
Aquele primeiro impacto te atinge como um tapa na cara, como um grito no fundo da cabeça onde realidade e negação se confundem, trocam de lugar num lugar que de repente parece ter ficado vazio e só existe uma frase que ecoa: Você está grávida.
Evidente que nesse momento, recorremos a alguém que possa olhar o exame e dizer que aquilo é um engano, então liguei para minha comadre e ao confirmar o fato inegável, começa a segunda fase do estágio de desespero: Quanta merda eu fiz nesses últimos dias estando grávida?
Eu bebi, sambei, sapateei e rolei na cara da sociedade e esta criança estava aqui, sendo gerada por mim!
Eu tinha sangue no olho, eu queria ir no médico e arrancar os bigodes dele e perguntar como eu tinha ficado grávida com possibilidade zero, quando me lembrei que era QUASE zero e que o quase é de um poder estrondoso. 
Não se enganem mulheres, a sociedade é uma filha da puta, a mídia que faz aquelas lindas e doces propagandas sobre maternidade só querem uma coisa: dinheiro. Para isso eles farão de tudo para te convencer que serão 9 meses lindos. É mentira. Não é uma revolta, nem um ódio, nem uma medida desesperada com a minha gestação, é a necessidade de desmistificar essa pressão que a sociedade faz para que as grávidas estejam sempre sorrindo e amando desesperadamente seus bebês.
Chegamos aos 2º mês de gestação ou 08 semanas, que descobri o porque das semanas, afinal, é em cada uma delas que um pequeno milagre acontece com o embrião e ele vai ganhando estruturas e melhorando as já existentes.
Eu enjoo quase 24h por dia. Eu tenho prisão de ventre. Eu sinto um sono equiparado a alguém que foi picado pela mosca Tsé-tsé (vide Google). Ninguém pensa que estou grávida e sim que estou gorda. Meus seios doem tanto que eu já me peguei falando com eles e tentando consolá-los dizendo que vai passar. Eu passo os dias e noites como creme e óleo por todo corpo para tentar minimizar e evitar as estrias. Os desejos são reais, assim como o vômitos que os precede. Eu como uma maçã e se eu vomitar 15 minutos depois não vomitarei a maçã porque ela já foi totalmente absorvida. Eu sinto fome e sinto enjoo simultâneo, já nem sei dizer o que é o que.

Expectativa:
 Realidade:

Não existe mágica nesse momento, a confusão mental, a desconstrução e construção de uma pessoa totalmente nova é dolorosa eu arrisco dizer brutal. 
Passei dias como o Goku, na nuvem, olhando os acontecimentos de fora, sem compreender exatamente o que estava acontecendo, sem me sentir grávida estando grávida. Sem me reconhecer no espelho.
Descobri que essa á uma reação comum, que o mundo não te conta porque não acha bonitinho e cuti-cuti e nhé nhé nhé e gugudadá. A maioria das grávidas usa uma máscara de felicidade enquanto tenta entender as mudanças físicas e a desestruturação psicológica enquanto se sentem culpadas por não sentirem o amor que o mundo espera que elas transbordem; sem saber que esse amor NÃO É INSTANTÂNEO, é construído, é dos pequenos momentos.
Ninguém ama instantaneamente alguém que não conhece, alguém que ainda não sente, ainda mais em meio a uma crise existencial. Eu me senti culpada, monstruosa,mas agora, real. 

Eu construo diariamente um contato com este pequeno ser humano que se estrutura dentro de mim, tento negociar um bom dia sem enjoo que ele/ela ignora já dando demonstrações de total desdém pela obediência.
Não existe obrigatoriedade aqui de que seja necessariamente a visão correta, é a minha e cada um aceita o que melhor lhe convém, mas ao menos considerar a possibilidade de que não existe mágica pode ajudar a encarar melhor a gravidez sem depositar grandes expectativas num primeiro trimestre que é bem difícil.
Ah, antes que eu esqueça, ouvir o coração bater é indescritível; aí realmente tem mágica.
    



Um comentário:

Flávia Rodrigues Pandolfo disse...

Hahahhahhahaha
A maternidade e seus altos e baixos!
Durante a gestação tudo é muito, tudo é intenso!

Te amo!
Amo vocês!
Beijooo
Flá