domingo, 26 de abril de 2009

O que o Alzheymer me ensinou?


Foi o que me perguntei dia 24 de abril.

Eu tenho 22 anos e aprendi metade das coisas que realmente valem a pena em pouquíssimo tempo, mas a maioria delas em 3 meses entre novembro de 2008 e janeiro de 2009 e antes disso na minha infância.

Quando criança eu aprendi que tocar no fogão poderia ser perigoso, e quando adulta comprovei isso nas inúmeras vezes que me queimei. Também aprendi que abrir a porta para estranhos ou mesmo conversar com eles não era bom, quando adulta comprovei isso nas vezes em que eu deveria ter ignorado desconhecidos para que não se tornassem conhecidos demais a ponto de me causar dor. Também fui ensinada a respeitar mais velhos, hoje eu como mais velha não sou respeitada por muitos dos alunos que tenho. Tentaram me ensinar a não mentir, mas isso é deveras difícil de aprender. Me disseram para não maltratar meus bichos de estimação, hoje eu cuido tão bem deles que não aceito perdê-los. Mas na minha infância, ninguém me disse que quando eu tivesse 9 anos de idade aprenderia a dar banho numa pessoa idosa e que esta pessoa me ensinaria anos depois as coisas mais importantes que alguém possa aprender.

Com 9 anos eu aprendi a dar banho em uma pessoa adulta e isso se tornou rotina em minha vida até os 22. Com 9 anos eu aprendi que havia um "mais velho" que não era capaz de me proteger e precisava da minha proteção. Também com 9 anos eu aprendi que não tinha uma avó como a do Sítio do Pica-pau Amarelo, mas que deveria amá-la e respeitá-la como se fosse.

Com 18 anos eu além de saber dar banho em um adulto, lidar com uma pessoa com limitações mentais, aprendi a perder alguém. Não foi tão difícil e então conclui que depende mais do quanto você ama a pessoa do que perdê-la de fato.

Aos 20 eu aprendi que o hospital pode ser uma grande fonte de conhecimento, além de um teste de resistência e mais uma vez perdi alguém.

Também aos 20 eu finalmente aprendi como é perder alguém amado e ver que a violência tinha chegado às portas da minha família, então desde lá eu havia aprendido a conviver com o medo sufocante de perder sempre.

Com 22 anos eu também aprendi que não se ama só pessoas do seu sangue, mas também aquelas que fizeram parte importante em nossas vidas, e que se minha avó não parecia com a Dona Benta, outras poderiam parecer e estavam dispostas a ser isso para mim e que estas pessoas também partem e como ironia do destino, lhe escolhem para compartilhar este momento e aí eu aprendi a ver alguém morrer, nos meus braços.
E então, também com 22 anos eu aprendi o que se chama Alzheymer, e não aquilo que procuramos na internet aprendi o que é conviver com alguém que o tem.
Por mais que você tente entender que ele é uma doença, de imediato seu cérebro lhe envia uma palavra como letreiro luminoso piscando em sua cabeça: MALDIÇÃO.

Durante 3 meses o Alzheymer me cuspiu, fez carinho, arranhou, sorriu, gritou madrugadas a fio, dormiu como um bebê, me xingou, me elogiou, jogou fora a comida que eu havia feito e raspou o prato além de pedir mais. Ele também me ignorou e chamou por mim quando estava com medo do escuro, pediu para eu sair porque não queria ver meu rosto e pediu que eu segurasse na mão pra poder dormir. Me odiou e amou, exteriorizando em palavras isso tudo.

Em 3 meses a minha avó me ensinou que não importa o quão cansado você esteja, sempre conseguirá levantar da cama quando alguém que você ama está chamando e eu entendi o porque da minha mãe levantar quando eu chamo porque estou com dor ou simplesmente com medo.

Dia 24 de abril ela me ensinou a última coisa poderia, me ensinou a perdê-la.

Continua.....

P.S.: Ao meu amigo João FPR, um aniversário com todas aquelas coisas que desejamos e um pouco mais. Obrigada por tudo. Beijos.


P.S.²: Aos meus amigos, que sabem o verdadeiro teor desta postagem, obrigada.

5 comentários:

JoaoFPR disse...

É JoaoFPR, sem o ~, obrigado pela citação na postagem, nãi havia necessidade.

Quanto ao conteúdo da postagem, não vou dizer nada a respeito, infelizmente sabe que entendo o que quer dizer.

E mais uma vez, perdão por não estar ai.

Mary_Flor disse...

Amiga querida, com sentimentos de afeto e amizade te digo: contem sempre comigo em todos os momentos que precisares, sejam eles bons ou ruins.

Força..Força..Força..

E onde quer que ela esteja.. está feliz e eternamente grata, por ter uma neta tão zelosa e amada!

Um beijão!
Te amo =)

Mundo selvagem disse...

É triste perder uma pessoa... mas pensar que ela está em um lugar melhor conforta mais que qualquer outra coisa.
quando soube da noticia abalou, não por eu conhecer mas sim pelo amor que tenho pelas pessoas que estam com ela...
O negocio é levantar a cabeça e seguir viagem

Flavinha disse...

Amiga amada...
Primeiro tentei postar meu comentário ontem, mas meu pc tem vida própria e ontem estava na TPM, suspeito eu... ^_^
Enfim, conversamos bastante sobre o que tu escreveste aí...achei legal que tu tenha postado, escrever sempre alivia...
E repito pra ti, tu não estás sozinha nessa!!!
Te amo amiga querida... =)

BjãoOoO ^_^

Ju . disse...

maninha! Praticamente estive ao teu lado em todos esses acontecimentos, agora não seria diferente! realmente pensar que ela está em um lugar melhor conforta muito. e acho que isso é oq nós devemos pensar! te amo!